Demóstenes, Marconi e Cachoeira - Relação misteriosa

  - Por Cleber Augusto/PTDF -  
Gravações telefônicas realizadas pela Polícia Federal com autorização da Justiça durante a Operação Monte Carlo, deflagrada no último dia 29/2, têm revelado uma relação de proximidade entre o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB-GO), o líder do PTB na Câmara e pré-candidato a prefeito de Goiânia, Jovair Arantes, e os deputados federais Carlos Alberto Lereia (PSDB-GO) e Sandes Junior (PP-GO) com o bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, mais conhecido como Carlinhos Cachoeira, acusado de comandar um esquema de jogos ilegais e fraudes em licitações no estado de Goiás.
Senador Demóstenes Torres (à esquerda), Marconi Perillo (centro) e o bicheiro Carlos Cachoeira (à direita). Fotomontagem.
Em uma das 298 conversas interceptadas pela PF e divulgadas no início deste mês, o líder do DEM no Senado se dirige ao contraventor com demonstrações de intimidade, amizade e cordialidade. "Fala, professor, melhorou?", pergunta o parlamentar ao bicheiro, que atualmente encontra-se detido em um presídio de segurança máxima em Mossoró (RN).
Por conta de sua ligação com Carlos Cachoeira, o democrata corre o risco de se tornar réu no Supremo Tribunal Federal (STF). 
Os diálogos gravados revelam, conforme o próprio senador já admitiu, que o bicheiro o presenteou com um conjunto de fogão e geladeira importados dos Estados Unidos no valor estimado de US$ 27 mil.

Questionado sobre sua relação com Carlos Cachoeira, que é tido pelo democrata como "um empresário do ramo de medicamentos genéricos" e "uma figura bem quista" na Cidade de Goiás, Demóstenes Torres afirmou: "Sou amigo dele há anos. A Andressa, mulher dele, também é muito amiga da minha mulher", declarou. Apesar dos vínculos de amizade, o senador alega não ter envolvimento com os negócios ilícitos realizados pelo bicheiro no estado. "Pensei que ele tivesse abandonado a contravenção e se dedicasse apenas a negócios legais".

Declarações no Plenário do Senado - No início da semana passada, Demóstenes Torres foi ao plenário do Senado para se defender das acusações de participação no esquema criminoso montado com o auxílio de políticos e servidores públicos – entre eles dois policiais federais, um policial rodoviário federal e um servidor da Justiça Estadual de Goiás, que recebiam pagamentos mensais ou semanais para acobertar o esquema.

"Não existe, nem nunca existiu nenhuma apuração que envolva o meu nome. Não sou investigado em nenhum fato, não sou acusado de nada, conforme provam os dados obtidos da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal", afirmou Demóstenes Torres, que pede ao STF a abertura de uma investigação sobre sua participação no esquema. "Agora eu é que exijo ser investigado na forma legal pelo foro adequado, o previsto na Constituição da República: o Supremo Tribunal Federal", discursou.

Segundo ele, a investigação deverá ser levada às últimas consequências. "Não há a menor possibilidade jurídica de envolvimento do meu nome ou de outro parlamentar. Um senador só pode ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Caso contrário, a Operação Monte Carlo estaria totalmente eivada de vícios. Não estou aqui para me defender, já que não há motivo. Venho em respeito aos senhores e senhoras senadores (as), bem como ao povo de Goiás, que me confiou dois mandatos", amenizou.

Casa de laranja
As denúncias de envolvimento no esquema respingam sobre o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), um dos candidatos apontados por José Serra (PSDB) para concorrer à Presidência da República em 2014. O juiz responsável pela décima-primeira Vara da Justiça Criminal de Goiás, que emitiu o mandado de prisão de Carlos Cachoeira, afirmou, em sua decisão, que "descobriu-se a influência de Carlos Cachoeira na nomeação de dezenas de pessoas para ocupar funções públicas no Estado de Goiás". O objetivo seria acobertar a exploração, pela quadrilha, de máquinas caça-níqueis em quatro estados e no DF.

Outro fato não esclarecido até o momento é a transação milionária envolvendo a venda de uma mansão pertencente ao governador de Goiás ao empresário Walter Paulo Santiago. O imóvel está localizado no condomínio Alphaville Ipês, em Goiânia, e teria sido utilizado como moradia por Carlos Cachoeira.
Questionado sobre a compra e a não utilização da mansão, o empresário Walter Santiago afirmou ter emprestado a casa ao corretor do imóvel – o ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Wladimir Garcêz (PSDB), preso durante a operação Monte Carlo em função de sua ligação com Carlos Cachoeira.

Segundo Santiago, o ex-vereador goiano pediu a mansão emprestada para que uma mulher morasse temporariamente. "Ele me pediu prazo até dia 15 de fevereiro porque a obra da casa da senhora atrasou. Eu falei que esperaria. Tudo normal", afirmou Santiago, proprietário da Faculdade Padrão.
Mesmo com a explícita relação de confiança, o empresário negou ter qualquer tipo de contato com Garcêz.

Ele também negou qualquer relação com Carlos Cachoeira, que ocupou o imóvel vendido por Marconi Perillo (PSDB-GO). "Conheço (ele) por nome. Já (o) vi algumas vezes, mas não tenho nenhuma intimidade, nenhuma amizade, também não tenho nada contra ele. Nada, nada, nada", afirmou Walter Santiago. A mansão foi vendida oficialmente por R$ 1,4 milhão em janeiro do ano passado. O governador de Goiás, Marconi Perillo, no entanto, apresentou declaração de bens em valor inferior a R$ 500 mil.

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